terça-feira, 12 de agosto de 2014

A experiência de enlouquecer.


            “Tive uma infância tranquila, jogando bola na rua... Em 1982 prestei vestibular para física na USP e não passei... Consegui uma bolsa no cursinho, passei perto e não entrei de novo. Foi um ano depressivo pra mim. Eram os primeiros sinais da esquizofrenia, mas eu não sabia.” Essa é uma parte do depoimento do escritor Jorge Cândido de Assis, que teve uma perna amputada após tentativa de suicídio, e que aos 49 anos de idade, acaba de lançar o livro “Entre a razão e a ilusão”, no qual relata sua convivência com a esquizofrenia. O que é descrito como “depressão” muitas vezes é o relato de parentes e amigos, que assim interpretam o isolamento social e a sensação de estranheza típicos da fase inicial do processo; além de ser uma reconfortante forma de negação e preparo para a nova realidade que se apresenta. É um período de apreensão por parte do indivíduo acometido, de angústia pela sensação de que algo está para acontecer. Finalmente surgem os delírios e as alucinações, principalmente de cunho persecutório, e que apesar de torturantes, geram um certo alívio, uma sensação de que “agora se sabe de fato o que está ocorrendo”. Os sintomas não são uniformes e por esse fato existem várias classificações da doença, com diferentes prognósticos, sendo a prevalência na população geral de cerca de 1%, sem preferência por sexo, raça ou status social. Nos homens o início costuma ser um pouco mais precoce, entre 15 e 25 anos de idade, enquanto nas mulheres, dos 20 aos 30. O medo, a sensação de vazio, os delírios (que são certezas irredutíveis e muitas vezes aterrorizantes), o uso errático da medicação e o estigma social, são uns dos principais inimigos na luta contra a doença.

            Sua etiologia ainda é incerta e seus mecanismos múltiplos, sendo a teoria da desregulação do neurotransmissor cerebral dopamina, a mais aceita atualmente. O surgimento da doença em ambos os gêmeos monozigóticos (idênticos) chega a ser quase 50%, em comparação com os dizigóticos (fraternos) – 17%, havendo estudos que apontam o envolvimento de vários genes (herança poligênica).  Clinicamente se expressa por uma cisão do pensamento, uma dificuldade de diferenciar as realidades interna e externa, podendo haver apatia e pobreza afetiva, apragmatismo, agitação psicomotora e descuido com os cuidados pessoais.

            Os surtos psicóticos, caracterizados por delírios e alucinações, não são patognomônicos da esquizofrenia, ou seja, podem ocorrer associados a outras patologias, podendo ser de causa psíquica, neurológica ou clínica (quadros infecciosos, doenças auto-imunes, transtorno bipolar, uso de drogas, surtos isolados e inúmeras outras). É necessário que haja um diagnóstico preciso e um tratamento precoce, pois o tempo de doença sem tratamento e as recaídas frequentes são motivo de pior prognóstico.

            A possibilidade de relação entre criatividade artística, inteligência e esquizofrenia tem sido tema de grande fascínio e mistério para muitas pessoas. Possivelmente a doença daria maior liberdade de ação, diminuindo a censura nas expressões pessoais de uma mente já aparelhada para tal e não como fator gerador ou determinante em si.  A esquizofrenia é uma doença grave, causadora de grande sofrimento, disfunção social e deterioração mental quando não tratada adequadamente e não deve ser confundida com a visão romântica de excentricidade e capacidade de destoar dos preconceitos vigentes.

            “O familiar precisa de tempo e de informação para mudar seus sentimentos, refletir sobre suas convicções e perder os preconceitos” – relata o pai de um paciente. “Aprender a lidar com os sintomas vem a partir da vivência cotidiana, que precisa de reflexão e reavaliação constantes. Nossas atitudes podem ser determinantes para o futuro da pessoa que sofre de esquizofrenia. Atitudes positivas contribuirão para uma melhor recuperação, um futuro mais promissor, com menores índices de recaída, maiores possibilidades para se trabalhar a autonomia e melhorar a qualidade de vida e dos relacionamentos. Atitudes negativas desgastam as relações, impossibilitam a recuperação plena e estão associadas a um maior número de recaídas e a uma evolução mais grave da esquizofrenia.”           

“Eu não sou só a doença, e a doença não me define. Tenho que lidar com a esquizofrenia, mas ela não é a parte mais fundamental da minha vida.” Jorge Cândido de Assis.