quarta-feira, 6 de agosto de 2014

"Uma dose de felicidade, por favor!"


     Correm apressados os primeiros segundos do ano de 2013. Ao meio de fogos de artifício, gritos, abraços, desejos de boa sorte e de sonhos realizados, pergunto-me onde está ela. Facilmente confundida com alegria, euforia e êxtase, é muito mais sutil e profunda, tão suave, que às vezes entre suspiros, exclamamos: "Ah, eu era feliz e não sabia!". Sempre me perguntei como isso é possível. Ser feliz e não saber?! Bom, se não se sabe, como se pode afirmar ser feliz então? Mesmo ainda não sabendo ao certo a resposta para essa pergunta - e nem sei se algum dia conseguirei saber - uma coisa posso afirmar: é ela que todos buscamos. Desesperadamente. É a razão de levantarmos da cama todos os dias, de procurarmos alguém para compartilhar a vida, de termos filhos, um bom trabalho, etc... Não importa qual seja o conceito de cada um, que é muito pessoal. O fato é que ela é a razão de nossos sonhos. E mesmo quando nos falta, ali está a esperança que não nos deixa esquecê-la e acreditar que um dia ela virá, passando então esse fato a ser o impulso capaz de nos fazer seguir em frente, apesar de tudo.
     Sendo tão importante e indispensável, por que não sabemos ao menos conceituá-la? Se nos perguntarem se somos felizes, muitos de nós ficarão sem resposta. Não sabemos nem ao certo o que seria realmente necessário pra que fôssemos felizes. Deveríamos inclusive ter uma disciplina na escola chamada "Felicidade", que nos explicasse o sentido da vida (ou pelo menos tentasse!), e nos dissesse o que fazer, como passar os dias , como lidar com nosso vazio existencial e com a paralisante sensação de que a qualquer momento tudo pode acabar.
     O fato é que nunca estamos satisfeitos. Se conseguimos algo, logo em seguida já temos novo desejo em seu lugar. E por aí vai, um desejo atrás do outro, sem nunca ter a sensação de plenitude, gerando ansiedade, frustração e muitas vezes depressão. Daí ao uso de drogas, lícitas ou ilícitas, é um pulo e a falsa sensação de felicidade vai guiando toda a nossa vida. Como diria Sponville: "Mais vale uma verdadeira tristeza, que uma falsa alegria". Obviamente, na época das neurociências e da farmacologia, não podemos levar ao pé da letra tal afirmação, uma vez que muitas vezes a medicação é de grande ajuda, evitando males maiores, como suicídio, síndrome do pânico, depressões e outros males incapacitantes, porém não podemos esquecer que a verdadeira felicidade vem da sabedoria. A medicação é arsenal de grande ajuda, mas não é o suficiente; ela apenas age como aparato para que o nosso trabalho interior aconteça, para que o encontro conosco, o autodomínio e a capacidade de nos autogerir, sejam desenvolvidas e capazes de dar um sentido às nossas vidas.
    Algumas vezes ouvi de pessoas bastante instruídas, que só o homem simples consegue ser feliz, exatamente por não ter consciência das questões existenciais da vida. Junto-me novamente a Sponville para discordar. A Filosofia não é a busca da sabedoria? Como uma pessoa sábia pode ser infeliz? A meu ver é justamente o contrário. O objetivo da sabedoria é a felicidade, é usufruir de nossos conhecimentos e experiências e das experiências alheias da melhor forma possível, antecipando e evitando problemas e amarguras, sem precisar passar por elas pessoalmente. A sabedoria é manter a sensação de alegria e contentamento mesmo já possuindo o objeto desejado, deleitando-se dele todos os dias e de formas diferentes. É somar as novas conquistas às antigas e não descartá-las como algo que perdeu a importância após a aquisição de algo melhor. É saber ler as entrelinhas da vida, observar o lado bom de cada coisa, seguir em frente apesar de tudo, fazer o bem,  importar-se com o outro, viver uma vida útil e desafiadora, sentir que se faz diferença. É saber que ninguém fará o que você deixar de fazer, que ninguém mais pintará o quadro que você não pintou ou comporá a música que você não compôs. É saber que o dia só tem 24 horas, que existe um horário pra dormir, que nós temos muito pouco controle sobre os outros e que devemos antes de tudo modificar a nós mesmos.
     A felicidade, no final das contas, é como um sabonete que escorrega de nossas mãos quando tentamos agarrá-la, mas que desliza suave quando estamos cumprindo sua função. Por isso não a encontramos nas noitadas nos barzinhos, nas bebedeiras, nas drogas, mas quando não a estamos buscando como objetivo principal, como no trabalho bem feito, na ajuda e no amor ao próximo, no sentir-se útil  e no desempenho zeloso de nossas funções de cada dia.