“Tive uma infância tranquila, jogando bola na rua... Em
1982 prestei vestibular para física na USP e não passei... Consegui uma bolsa
no cursinho, passei perto e não entrei de novo. Foi um ano depressivo pra mim.
Eram os primeiros sinais da esquizofrenia, mas eu não sabia.” Essa é uma parte
do depoimento do escritor Jorge Cândido de Assis, que teve uma perna amputada
após tentativa de suicídio, e que aos 49 anos de idade, acaba de lançar o livro
“Entre a razão e a ilusão”, no qual relata sua convivência com a esquizofrenia.
O que é descrito como “depressão” muitas vezes é o relato de parentes e amigos,
que assim interpretam o isolamento social e a sensação de estranheza típicos da
fase inicial do processo; além de ser uma reconfortante forma de negação e
preparo para a nova realidade que se apresenta. É um período de apreensão por
parte do indivíduo acometido, de angústia pela sensação de que algo está para
acontecer. Finalmente surgem os delírios e as alucinações, principalmente de
cunho persecutório, e que apesar de torturantes, geram um certo alívio, uma
sensação de que “agora se sabe de fato o que está ocorrendo”. Os sintomas não
são uniformes e por esse fato existem várias classificações da doença, com
diferentes prognósticos, sendo a prevalência na população geral de cerca de 1%,
sem preferência por sexo, raça ou status social. Nos homens o início costuma
ser um pouco mais precoce, entre 15 e 25 anos de idade, enquanto nas mulheres,
dos 20 aos 30. O medo, a sensação de vazio, os delírios (que são certezas
irredutíveis e muitas vezes aterrorizantes), o uso errático da medicação e o
estigma social, são uns dos principais inimigos na luta contra a doença.
Sua etiologia ainda é incerta e seus mecanismos múltiplos,
sendo a teoria da desregulação do neurotransmissor cerebral dopamina, a mais
aceita atualmente. O surgimento da doença em ambos os gêmeos monozigóticos
(idênticos) chega a ser quase 50%, em comparação com os dizigóticos (fraternos)
– 17%, havendo estudos que apontam o envolvimento de vários genes (herança
poligênica). Clinicamente se expressa
por uma cisão do pensamento, uma dificuldade de diferenciar as realidades
interna e externa, podendo haver apatia e pobreza afetiva, apragmatismo,
agitação psicomotora e descuido com os cuidados pessoais.
Os surtos psicóticos, caracterizados por delírios e alucinações,
não são patognomônicos da esquizofrenia, ou seja, podem ocorrer associados a
outras patologias, podendo ser de causa psíquica, neurológica ou clínica (quadros
infecciosos, doenças auto-imunes, transtorno bipolar, uso de drogas, surtos
isolados e inúmeras outras). É necessário que haja um diagnóstico preciso e um
tratamento precoce, pois o tempo de doença sem tratamento e as recaídas
frequentes são motivo de pior prognóstico.
A possibilidade de relação entre criatividade artística,
inteligência e esquizofrenia tem sido tema de grande fascínio e mistério para
muitas pessoas. Possivelmente a doença daria maior liberdade de ação,
diminuindo a censura nas expressões pessoais de uma mente já aparelhada para
tal e não como fator gerador ou determinante em si. A esquizofrenia é uma doença grave, causadora
de grande sofrimento, disfunção social e deterioração mental quando não tratada
adequadamente e não deve ser confundida com a visão romântica de excentricidade
e capacidade de destoar dos preconceitos vigentes.
“O familiar precisa de tempo e de informação para mudar
seus sentimentos, refletir sobre suas convicções e perder os preconceitos” –
relata o pai de um paciente. “Aprender a lidar com os sintomas vem a partir da
vivência cotidiana, que precisa de reflexão e reavaliação constantes. Nossas
atitudes podem ser determinantes para o futuro da pessoa que sofre de
esquizofrenia. Atitudes positivas contribuirão para uma melhor recuperação, um
futuro mais promissor, com menores índices de recaída, maiores possibilidades
para se trabalhar a autonomia e melhorar a qualidade de vida e dos
relacionamentos. Atitudes negativas desgastam as relações, impossibilitam a
recuperação plena e estão associadas a um maior número de recaídas e a uma
evolução mais grave da esquizofrenia.”
“Eu não sou só a doença, e a
doença não me define. Tenho que lidar com a esquizofrenia, mas ela não é a
parte mais fundamental da minha vida.” Jorge Cândido de Assis.

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